segunda-feira, 23 de março de 2015

ESPECIAL GREVE: Charges

Desde o último dia 13 de março, os professores do Estado de S. Paulo estão de greve. É um movimento que cresce a cada dia, e que não tem a mesma visibilidade da greve de seus colegas paranaenses ou brasilienses (também ocorridas em 2015) posto que a mídia (sobretudo televisiva) não vem noticiando as multidões de professores que vem ocupando as ruas de São Paulo nas últimas sextas-feiras. 
Se por um lado a opinião pública vem se calando sobre o assunto (de suma importância para toda a sociedade), por outro, artistas talentosíssimos vem dando o seu apoio aos professores paulistas. Na postagem "O apoio de Clóvis", publicada no último sábado, fica evidente esse apoio, carinho e homenagem prestada por chargistas solidários aos mestres (com carinho). 
As charges são ilustrações que satirizam uma realidade política, normalmente usam da caricatura para se expressar e assim destacar uma situação que aos olhos do chargista merece destaque, gerando assim uma reflexão sobre o assunto. Charge é uma palavra de origem francesa e significa carga. No Brasil, as charges sempre estiveram presentes nas críticas ao governo, desde os tempos de Brasil Império, quando a imprensa da época publicava charges que criticavam o imperador D. Pedro II, por exemplo:
Vejamos algumas charges que aludem à greve dos professores:

Charge 01: Do site Brasil de fato, mostra a presença militar nas manifestações e assembleias das greves de professores.


Charge 02: Apesar de essa charge  de Latuff ter sido feita por causa da discussão em torno do Movimento Passe Livre, foi resgatada por ocasião da greve dos professores. Motivo: em 15/03, no ato contra o governo federal, as catracas do metrô foram liberadas. Em 20/03, durante a assembléia de professores não, o que gerou filas quilométricas. Dois pesos e duas medidas.


Charge 03: Nesta charge, que circula pelas redes sociais desde janeiro de 2015, o artista critica o governador Alckimin por suas medidas de contenção de despesas, que na prática levaram ao fechamento de salas e consequentemente, a superlotação das que restaram.



Charge 04: Infelizmente não foi possível identificar o autor da charge. Nela, o artista mostra o governador como manipulador de seus funcionários de alto escalão da Secretaria da Educação, na tentativa de conter o movimento grevista.

sábado, 21 de março de 2015

ESPECIAL GREVE: A greve documentada.

A greve é a interrupção dos trabalhos com o objetivo de dialogar com os patrões em torno de uma pauta de reivindicações. O termo tem sua origem em Paris, num porto fluvial onde franceses desempregados se reuniam para discutir questões pertinentes ao emprego no Place de Gréve, seu significado literal é: "terreno plano de cascalho à beira do rio ou do mar". As primeiras greves teriam ocorrido nesse local no século XVIII.
No Brasil, há inúmeros movimentos grevistas famosos encabeçados por operários desde o inicio do século XX. Certamente as greves brasileiras mais famosas são as que aconteceram no final da década de 1970 protagonizadas por metalúrgicos do ABC paulista, mas diversas categorias profissionais entram em greve no país para expressar seu descontentamento: professores, médicos, policiais, garis e etc. 
A greve é um direito constitucional contido no artigo 9º da lei máxima do país. Não é uma falta. É um acordo coletivo decidido pela assembléia da categoria que a legitima e assim tenta estabelecer negociações com os seus superiores. Quem trabalha na intermediação dessa negociação é o TRT - Tribunal Regional do Trabalho, órgão responsável por julgar seu mérito. Todo o processo de negociação é documentado. 
Vejamos a documentação pertinente a Greve dos Professores Estaduais de São Paulo em curso:


 Ofício 01: Antes da Assembléia que decidiu pela greve, em 10/03/2015, a presidente do sindicato dos professores (APEOESP), enviou um ofício ao Secretário da Educação propondo um diálogo, o qual não obteve retorno satisfatório.


  Ofício 02: Imediatamente após a Assembléia de 13/03/2015 que deflagrou a greve, o sindicato envia um documento comunicando a greve da categoria e submetendo uma pauta de reivindicações para ser apreciada e para que possa iniciar a negociação. Neste caso, o ofício é enviado diretamente ao governador.



Ofício 03: Um documento semelhante ao que fora enviado ao governador é encaminhado para o Secretário de Educação.




Ofício 04: Mais uma vez o sindicato pede para estabelecer diálogo com o secretário da Educação de São Paulo, em 18/03/2015. No documento são citados outros semelhantes que permaneceram sem resposta.


Ofício 05: Semelhante ao documento anterior enviado ao secretário de Educação é enviado para apreciação do governador.


Ofício 06: A pauta de reivindicações é novamente enviada ao governador. O objetivo é que haja negociação e que se possa chegar a um acordo que seja bom para ambas as partes.

sexta-feira, 20 de março de 2015

ESPECIAL GREVE: O apoio de Clóvis!


Paulo Stocker, cartonista brasileiro, elaborou uma tirinha em apoio à greve dos professores estaduais de S. Paulo que vem sendo ignorada pela imprensa tradicional.


Em greve, os professores estaduais, são ignorados pela mídia,  mas sua luta é vista com muito carinho por pessoas sensíveis a causa dos educadores, que exigem valorização e respeito a sua carreira. Em todo o estado,  diversos setores da sociedade tem apoiado a greve.
Após o ato público de ontem,  em que mais de 60 mil professores tomaram as ruas de São Paulo, o artista plástico, cartunista e muralista Paulo Stocker, reconhecido internacionalmente por seu brilhante trabalho,  se sensibilizou à causa e nos homenageou com uma charge de sua personagem mais famosa: Clóvis.
Clóvis reconhece a importância dos professores para feitura de uma sociedade mais justa e próspera. Que todos possam ver e reconhecer que a nossa causa é de todos, afinal, a base de toda a conquista é o professor! 

ESPECIAL GREVE: A greve continua!

Debaixo de uma baita chuva, mais de 60 mil professores paulistas, vindos de diversas regiões do Estado de São Paulo, se reuniram no vão livre do MASP em Assembléia e decidiram pela continuidade da greve iniciada na sexta-feira passada (13). O governo do Estado de São Paulo e sua secretaria de Educação esta semana decidiram ignorar o movimento, que cresce a cada dia e se fortalece cada vez mais diante de tanta insatisfação com a precarização do sistema educacional público paulista.



A Assembléia optou pela continuidade da greve nesta tarde chuvosa.

Um dos motivos que tem impulsionado o crescimento do movimento foram as declarações (infelizes) do governador Geraldo Alckimin, que no sábado (14) disse que "todo ano é essa novela", referindo-se as greves estaduais de professores, movimentos que ocorrem quase que anualmente no estado que é administra há mais de 20 anos pelo seu partido e por sua própria pessoa. Isso por si só, já demonstra que o descontentamento não é pontual, mas recorrente.

Muitos professores têm protestado pela fala infeliz do governador comparando o movimento a uma novela.

Apesar da multidão incontestável, o governador e seu secretário de Educação não se pronunciaram em relação a negociação das pautas da greve, que incluem aumento de salário e melhores condições de trabalho, a reabertura de salas fechadas e o fim da superlotação das salas de aula, bem como o fim da duzentena que deixa professores contratados desempregados e alunos sem aula. Nas ruas da cidade, os professores pediram o apoio da sociedade:


Cartaz pedindo o apoio dos pais dos alunos.

Após a decisão pela continuidade da greve, os professores fizeram uma enorme passeata pela Avenida Paulista e Rua da Consolação. Pelo centro financeiro da capital paulista os professores demonstraram sua luta legítima para toda a sociedade.


Professores destacam a posição autoritária do governador frente a greve dos professores de 2015.

O ato se encerrou em frente à Praça da República, onde fica a sede da Secretaria Estadual da Educação de São Paulo. Na descida da Rua da Consolação foi possível constatar a grande multidão de professores em greve por respeito e valorização do magistério paulista.


Grande multidão de professores decide a continuidade da greve de professores em 2015.

quinta-feira, 19 de março de 2015

ESPECIAL GREVE: Você sabia?


Produzido por professores de Piracicaba-SP.


O diferencial da greve de 2015 é que ela tem tido grande adesão dos professores do interior de São Paulo. Muitos deles estão sendo imensamente afetados, pois, para constituir jornada, tem que lecionar em cidades diferentes e distantes umas das outras. Esse vídeo que explica a situação que levou a categoria a paralisar, foi elaborado de maneira didática e bem fácil de entender, foi produzido por professores piracicabanos que além do engajamento politico demonstram um grande potencial e competência na elaboração de material audiovisual. 

ESPECIAL GREVE: Professor de SP em greve por tempo indeterminado!


Vídeo elaborado pelo professor Lucas Marfim.


Desde o último dia 13, os professores do Estado de São Paulo estão de greve. A Assembléia Estadual dos Professores ocorrida no vão livre do MASP,  na Avenida Paulista (centro financeiro da capital paulista) optou por suspender as atividades docentes no estado. A greve é consequência dos inúmeros ataques sofridos pelos professores paulistas ao longo dos últimos anos. Entre eles,  pode-se destacar a precarização do trabalho docente, subdividido em categorias, que possuem direitos diferenciados apesar de exercer o mesmo trabalho; a falta de estrutura para lecionar em escolas que não possuem estrutura física adequada e segurança, entre outras coisas. Além disso, o governo não cumpre a lei do piso nacional,  que dá mais tempo para o professor preparar aulas, e não dá aumento real de salário há muito tempo. O professor é o único profissional de nível superior que não recebe como tal,  mesmo quando avança nos estudos,  não é remunerado a altura. Não há sequer um plano de carreira que incentive ou valorize os professores estaduais.
Como se não bastasse essas questões,  o governo conseguiu precarizar ainda mais a situação, ao diminuir as aulas destinadas aos professores de Educação Física,  que nos últimos anos são obrigados a se filiar ao CREF,  tendo que pagar do próprio bolso R$400,00 anuais e podem ser punidos a qualquer momento. No estado inteiro, cerca de 1000 salas de aula foram fechadas,  o que deixou milhares de professores desempregados. Mesmo os efetivos e concursados tiveram que acomodar suas aulas em situação precária, tendo que pegar aulas em substituição de seus próprios colegas. Muitos estão alocados em 3 ou 4 escolas para constituir jornadas de 20, 24 aulas.
Se a situação está difícil para os efetivos, para estáveis e contratados está muito pior. Muitos professores que estão próximos de se aposentar, ficaram sem aulas. Outros estão impedidos de lecionar por 200 dias (duzentena). Esses professores estão desempregados para que o governo não possua vinculo empregatício e assim não pague os direitos trabalhistas. Cerca de 20 mil professores estão impedidos de dar aulas nesse primeiro semestre letivo. Sem contar que nas escolas, além da falta de professores e da superlotação das salas de aula, há um corte de verbas que diminuiu ainda mais as condições de manutenção básica,  como a própria compra de materiais de higiene e limpeza. 
O governo diminuiu a quantidade de professores coordenadores pedagógicos - que auxiliam no andamento dos projetos pedagógicos - mostrando que não está de fato preocupado com o aprendizado dos alunos que pertencem à rede estadual, ou seja,  seus 5 milhões de alunos. Por outro lado,  o governador anunciou que cortaria despesas com a Educação,  não daria aumento aos professores em 2015,  mas aumentou em mais de 4 mil reais o seu salário e o de seus secretários de governo, incluindo-se aí o próprio secretário de Educação. Foi anunciado também um aumento de salário aos diretores de escola,  como maneira de incentivá-los a cumprir as determinações da Secretaria Estadual de S. Paulo.
Diante de tantos ataques, os professores decretaram a greve num momento de crise educacional. Em fevereiro passado,  os professores do Estado do Paraná (estado vizinho) passaram um mês de greve,  num movimento que se iniciou com o não pagamento aos professores de seus salários e férias de janeiro. 
Como se vê,  não resta outra alternativa aos professores. Lutar é preciso para manter seus direitos e parar com tantas opressões.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Mitologia - Dânae para entender o poder dos raios solares:

Os mitos, durante muito tempo consistiram na única explicação plausível para o homem entender o mundo e os diversos fenômenos da natureza. Eles estão presentes em diversas civilizações da Antiguidade e possuem símbolos e personagens fictícios que muitas vezes se misturavam com a realidade.
Povoaram o imaginário de muitos povos e até hoje estão presentes no cinema, na literatura, nas diversas linguagens que utilizamos no nosso cotidiano e no entretenimento. Muitos mitos foram usados até mesmo de maneira religiosa pelos povos antigos que eram politeístas, isto é, acreditavam em diversos deuses. 
Para ilustrar uma explicação mítica a cerca da fecundação da terra e o poder dos raios solares sobre a mesma, vejamos a história de Dânae:


A chuva de ouro sobre Dânae.

Dânae era filha do rei Acrísio e de Eurídice, de Argos. Um oráculo previu que o rei seria morto pelo neto, filho de sua unica filha. Para impedir a tragédia, o rei trancou a princesa numa caverna de bronze, para impedir que assim ela se envolvesse com alguém e pudesse engravidar.
Porém, Zeus se apaixonou perdidamente por Dânae. Para ter acesso a amada, ele se transformou em uma chuva de ouro, assim, pode ficar nos braços da amada por uma noite e desta forma, a engravidou. Dessa relação nasceu Perseu.
Quando o rei Acrísio soube da gravidez da filha, ficou profundamente irritado. Mandou lançar mãe e filho no Mar Hegeu, dentro de um cofre. Estes foram salvos por Dictis, que os abrigou e protegeu até que a criança crescesse. Mais tarde, já adulto, o rapaz matou o avô, vingando-se do que sofrera ao lado da mãe.

Crédito:
Adriély Baptista - 3ºB

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ALCKMIN:CHEGA DE DESCASO COM OS EDUCADORES DA REDE PUBLICA DE SÃO PAULO!

Por: Profº Richard Araújo

Há poucos minutos terminou o segundo dia do Processo de Atribuição de Aulas da rede estadual de ensino e a única palavra que retrata a forma como foram tratados os professores e professoras é descaso.

As salas de aula fechadas, as regras absurdas impostas aos professores e professoras de educação física, impedidos de atribuírem em suas escolas as aulas livres do Ensino Médio Noturno e as turmas de ACD, levaram a que um processo que poderia ser tranquilo, tenha se transformado numa verdadeira sessão de tortura que durou mais de 12 horas e que teve como saldo a atribuição de substituições para quase uma centena de efetivos, e quase duas centenas de profissionais que ficaram sem aulas, se encontrando por enquanto na situação de efetivos precários.


Confusões de toda a natureza cometidas pela DER Leste 2 e a total falta de espaço físico para minimizar os desgaste de homens e mulheres, que ficaram alguns sem almoço e janta, devido ao medo de se ausentarem parcialmente do local e serem chamados para a sessão de escolha, foram apenas alguns dos exemplos de como somos tratados pelo governo estadual, que utiliza a educação como peça de suas mentiras eleitorais durante a eleição, mas que na vida real não desiste de adotar medidas, que apenas servem para piorar cada vez as já péssimas condições de trabalho na rede e que tornam o emocional dos professores e professoras da rede cada vez mais instável, fato não considerado pelo governo quando se utiliza da imprensa para lançar dúvidas sobre o grau e profundidade do adoecimento da categoria.

Mas o que esperar de um governo, que mesmo diante da visível crise que vive a educação paulista, depois de fechadas as urnas eletrônicas, adotou como uma das suas primeiras iniciativas o anúncio do corte de verbas da Educação de R$ 800 milhões? O que esperar de um governo que está envolvido em diversas denúncias de corrupção no metrô e na CPTM e que teve entre as principais fontes de arrecadação de sua campanha as mesmas empresas que estão envolvidas nessas denúncias? O que esperar de um governo que durante toda a campanha negou a crise hídrica que atinge o estado e que tem levado há que bairros e cidades fiquem sem uma gota sequer de água por dias e que há poucos dias confirmou que a situação está grave?

Não podemos esperar nada diferente deste governo! O governo Geraldo Alckimin cada dia mais se mostra como um governo inimigo dos trabalhadores, do povo pobre e da educação pública, pois seu compromisso verdadeiro é com as empresas que financiaram sua campanha, com as montadoras que abocanharam bilhões de reais em isenções fiscais e agora demitem em massa os metalúrgicos em todo o estado, depois de terem enviado para fora do país, para suas matrizes, o dinheiro que deveria ter sido investido na educação pública e na valorização dos profissionais da rede estadual de ensino.

Infelizmente, Alckimin não está sozinho no quesito de utilizar a educação como peça de propaganda nas eleições, enquanto na vida real só faz atacar a escola pública, pois também o governo Dilma, apesar de todo o discurso de transforma o país numa "Pátria Educadora", anunciou o corte de R$ 7 bilhões da educação, a área federal que teve o maior corte de verbas, e ainda anunciou como ministro da Educação o famigerado Cid Gomes, conhecido por afirmar, quando era governador do Ceará, que professor não deve trabalhar por dinheiro, mas por amor.

Precisamos construir a unidade da categoria para fazer frente aos ataques à educação feitos por Alckmin e também pelo governo Dilma.

O primeiro passo neste sentindo é realizarmos um grande ato no próximo dia 29 de janeiro para denunciarmos todo o desrespeito que estamos vivendo neste processo de atribuição de aulas, que só tende a piorar, pois as aulas são poucas porque o governo prefere fechar milhares de salas em todo o estado (e superlotar as que permanecem abertas) do que reduzir o número de alunos por sala para a melhorar as condições de trabalho dos professores ou ainda impor a precarização do trabalho do magistério a respeitar a jornada da Lei do Piso, que, se aplicada, teria dois impactos imediatos: melhora da qualidade de vida da categoria com a redução de nossa jornada em sala e garantia do direito ao emprego para todos aqueles que estão sem aulas no momento.

No entanto, para alcançarmos tais bandeiras, precisamos superar a fragmentação artificial que o governo criou para nos atacar e demonstrarmos com nossa unidade e organização que somos todos professores e que estamos fartos de tantos ataques e desrespeito!

Vamos seguir o exemplo dos metalúrgicos da Volks e construir a unidade de nossa categoria para barrarmos as demissões e derrotarmos este governo inimigo da educação.

Richard Araújo é docente da rede estadual de São Paulo. Militante do PSTU e dirigente da oposição da Apeoesp. Sua vida é dedicada às lutas por uma escola onde haja dignidade para alunos e professores, em que predomine um tratamento humano e condizente com as necessidades das pessoas que lutam pra ter uma vida melhor. Seu relato versa sobre o processo de atribuição de aulas de 2015 iniciado em 21 de janeiro de 2015 e do dia 22 de janeiro, quando os professores foram constituir jornada em condições degradantes. 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Rapsódia dos Pequenos Burgueses - uma boa impressão:


Cartaz oficial da peça que está em cartaz até 14/12 em S. Paulo. 

Primeiramente, é preciso explicar o que vem a ser uma rapsódia: são pequenos trechos extraídos de determinada obra a fim de se discutir um tema. No caso dessa peça teatral, especificamente, são extraídos trechos significativos da obra de Maxim Gorki (pseudônimo de Aleksei M. Peshokov, escritor russo e ativista russo que viveu a dura transição política entre os séculos XIX e XX) a cerca da pequena burguesia.
A peça teatral explora a dura realidade dos trabalhadores e das famílias em seus pequenos núcleos que por vezes se estendem, com seus dramas e conflitos cotidianos. Embora a trama se desenvolva originalmente numa Rússia de inicio do século passado, pode perfeitamente adequar-se a realidade de muitos de nós que vivemos nas periferias das grandes cidades brasileiras. 
O fracasso, o sucesso, a dor, a depressão, a angústia de muitos indivíduos com os quais convivemos (ou somos muitas vezes) e que abalam as estruturas estão presentes como num reflexo. Há diálogos fundamentais que nos chamam a atenção para nosso posicionamento perante a vida em sociedade, nosso comportamento diante dos acontecimentos cotidianos e nosso comportamento politico são expressados de maneira contundente sob vários aspectos.
Não bastasse a presença desses elementos, em A Rapsódia dos Pequenos Burgueses tem a sublime capacidade de nos envolver como expectadores e ao mesmo tempo co-participes desses dramas e faz-nos refletir e pensar, mergulhando de fato no tema e sentindo-se parte integrante, não de uma história (como tantas outras que passam a ser encenadas) mas protagonistas de nossas próprias atitudes de pequenos burgueses, que possuímos sem muitas vezes nos dar conta delas. 
A peça também é bastante inovadora em sua própria exibição, posto que faz do salão nobre da Casa do Povo (teatro localizado no bairro do Bom Retiro em S. Paulo, criado por imigrantes judeus progressistas e de esquerda, no Pós Primeira Guerra Mundial) seu cenário e o utiliza plenamente, numa combinação de múltiplas linguagens artísticas capazes de trazer a cena elementos distintos numa mesma apresentação, onde está presente além da linguagem teatral, a dança, a fotografia e se dá até mesmo a impressão de tratar-se de cinema. As luzes e os efeitos são um show a parte e são fundamentais para tantos efeitos que se misturam e se combinam.
A Cia. Bruta de Arte (idealizadora de toda essa composição que exprime uma arte essencial acima de tudo) se apresenta com maestria. Excelentes atores que emprestam o corpo e o exato tom de voz para cada cena e para cada ato, que é milimetricamente (bem) explicado pela equipe que os acompanha na iluminação e nos slides (cuidadosamente preparados). A direção é de Paulo Maeda e o elenco conta com a estreante no cinema e membro da Cia. desde sempre, Teka Romualdo - Os Amigos (2014) - que está em cartaz nas telonas desde 27 de novembro último.
Enfim, teatro para ver, sentir e pensar, daqueles que proporcionam em alguns momentos uma infinita sensação de contentamento, por se constatar que é possível pensar e repensar a vida, enquanto vivos.

Torres de marfim



* Profº Dr. Rodrigo Medina Zagni


Em seu “exame de consciência” escrito em 1933, Lucien Febvre - professor da Universidade de Estrasburgo –, na dura crítica que dirigiu aos “sorbonistas”, asseverou que “a ciência não se faz numa torre de marfim. Faz-se a par e passo com a vida, e através de seres vivos que mergulham no século.”
É certo que as universidades brasileiras, desde a sua criação, padecem do mal identificado por Febvre, ou seja, já nasceram apartadas da sociedade onde se encontram encravadas como torres onde, do alto e bem distantes daqueles que estão em seu entorno, seus senhores olham o mundo ao redor como domínio de suas ciências. Cumprindo o objetivo de abrigar os filhos das aristocracias brancas do séc. XIX, sua função originária segue sendo reafirmada por seus setores mais conservadores, senão no plano político-institucional, nas mentalidades que, vez por outra, transbordam consciências e manifestam-se na condução que determinados senhores dão aos destinos daquilo que, apesar de coisa pública, tratam como domínios seus.
Recentíssimas em relação aos seus antepassados, são herdeiras de permanências que remontam do séc. XI ao XIII, quando as universidades eram ainda novidades no ambiente europeu. Dentre essas permanências, nas universidades brasileiras claramente se percebe a vigência de laços de suserania e vassalagem num universo de trocas comuns entre benefícios e fidelidades que as dotam de caracteres anacronicamente estamentais. 
Mas as universidades brasileiras são herdeiras também de outras tradições, tendo nascido fortemente marcadas pelo espírito revolucionário europeu de 1848, a “primavera dos povos” dotou-lhes de aspirações notadamente republicanas, vinculando-se ao moderno ideal de democracia e abrigando entre alunos e professores os propositores mais conscientes das “jovens-nações”. Ambientes de gestação do espírito nacional, logo as universidades se converteriam num dos mais importantes alicerces do Estado-Nação e do ideal democrático de soberania popular.
Ou seja, a universidade, no Brasil, é filha de tradições antagônicas e nasce dividida entre aspirações conflitantes: corte ou república? A díade nos obriga a outros questionamentos: nela, as decisões são colegiadas e democráticas; ou sua condução é senhorial e monocrática? Ou a quem serve a universidade pública no Brasil, às oligarquias ou àqueles que, na luta por soberania popular, têm direito à universidade, mas não têm acesso a ela?
Questionamentos de importância vital, dados os lamentáveis acontecimentos havidos nos últimos dias no Campus Baixada Santista da Universidade Federal de São Paulo. 
Entre os dias 24 e 28 de novembro, o campus abrigou as atividades da “II Semana da Consciência Negra: 100 anos de Carolina Maria de Jesus”, realizada pelo “Núcleo de Estudos Reflexos de Palmares” e que contou, em suas atividades, com a participação de uma série de instituições, coletivos e movimentos de luta contra a discriminação racial.
A comunidade externa, integrada à comunidade acadêmica, participou de uma série de atividades artístico-culturais no campus como aquelas promovidas pelos grupos “Netos de Bandim”, “Filhos de Gandhi” e “Carolinas ao Vento”; e discutiu temas como “o negro e a universidade”, “o genocídio da juventude negra”, “religiões de matriz africana”, “mulheres negras e identidade” etc. 
Trata-se de temas que precisam, urgentemente, ocupar as nossas reflexões e mover nossas ações na luta por uma universidade socialmente referenciada e encarnada nos problemas daqueles que, efetivamente, subsidiam sua existência. 
Como discutir, na universidade, o racismo que acomete a juventude negra se esta, historicamente, vem sendo excluída da universidade? Dentre os alunos, quase não há negros e nos postos mais precários da universidade, sobretudo entre os funcionários terceirizados, quase não há brancos. Entre docentes o corte é ainda mais brutal: no Campus Baixada Santista, num universo de mais de 200 professores, apenas três são negros, proporção parecida com a do Campus Osasco. Uma universidade socialmente referenciada é aquela que chama a sociedade ao seu entorno para ocupar os seus espaços e discutir sobre os seus problemas. E foi para discuti-los que vários grupos, naquela semana, ocuparam o espaço que historicamente foi e vem lhes sendo negado.
E como a direção do campus os acolheu? Ao menos é possível dizer sobre aquilo que fora registrado, em vídeo, por smartphones e por meio de registro de ocorrência policial (isso mesmo!) lavrada pelo 4º Distrito Policial de Santos.
Tendo recebido notícia de que pessoas “estranhas ao campus” encontravam-se no “Laboratório de Informática” fazendo uso de equipamentos, a diretora do campus, acompanhada de dois seguranças, para lá se dirigiu. De acordo com as imagens, a diretora se referiu aos presentes dizendo “isso não é uma lan-house” e que todos aqueles que não portassem identificação de alunos deveriam sair imediatamente. Seis jovens, que faziam uso dos computadores, se levantaram constrangidos e deixaram o local, alguns teriam ido buscar seus documentos de identidade, achando que se os apresentassem poderiam fazer uso do espaço. Ato contínuo, a diretora dirigiu-se às únicas duas jovens negras que ali estavam e solicitou-lhes identificação, por sorte eram alunas e puderam permanecer, mas profundamente ofendidas pelo fato de que outros ali presentes, brancos, não tinham sido solicitados a nada, procedimento que acusaram seletivo.
Situação não apenas constrangedora; mas humilhante para os meninos que haviam sido convidados à universidade para integrarem-se a ela, bem como para as alunas que, sentindo-se discriminadas, registraram ocorrência policial a respeito.
O destrato com a juventude negra, pobre e marginalizada contrasta com o espírito humanista que deveria encarnar a universidade pública.
Que bom seria se esses meninos pudessem ser assistidos por uma universidade capaz de acolhê-los e que, inclusive, lhes fraqueasse o uso de tecnologias como aquelas do laboratório de onde foram expulsos; diga-se de passagem meios fundamentais para o exercício, hoje, de cidadania, em tempos de “cidadania digital”. Mas nunca foram, esses meninos, cidadãos! Recordando os ensinamentos do emérito professor Dalmo de Abreu Dallari, quando apenas alguns são assistidos não há direitos e sim privilégios; logo, não há cidadania. Nunca houve mesmo cidadãos no Brasil, é o que sustentava Milton Santos, intelectual negro que conheceu de perto o racismo nas universidades por onde passou; não seriam esses meninos então os primeiros e lamentavelmente não serão os últimos.
Será preciso escalar as paredes das torres, para que as universidades brasileiras deixem de ser instituições ensimesmadas, estéreis e incapazes de lidar com a diversidade, corroborando práticas históricas de exclusão e perpetuando violências de todo tipo, sobretudo as de classe, raça e gênero.
Trata-se da construção de uma outra academia para uma outra ciência; que não seja torre mas forvm, onde não haja senhores e suas vontades mas democraticamente as vontades de todos, onde não haja ordens manifestas de maneira autoritária mas argumentos dispostos ao dissenso e onde haja, sobretudo, respeito em lugar de condutas assediosas. 
Se não nos conformamos com o inaceitável, costumeiramente aceito pelos que obedecem a voz de sua própria conveniência, que sejamos desconformes então pois essa é a única forma de sermos verdadeiramente cientistas, uma vez que, nos lembrara Febvre: “... na origem de qualquer aquisição científica está o não conformismo. Os progressos da Ciência são frutos da discórdia. Como é de heresia que se alimentam, se enriquecem, as religiões.” 

Osasco, 8 de dezembro de 2014.

Subscrevem, em apoio,

Prof. Dr. Alberto Handfas
Ciências Econômicas – EPPEN-UNIFESP

Prof. Dr. Daniel Augusto Feldman
Ciências Econômicas – EPPEN-UNIFESP

Profa. Dra. Esther Solano Gallego
Relações Internacionais – EPPEN-UNIFESP

Prof. Dr. Fabio Luis Barbosa dos Santos
Relações Internacionais – EPPEN-UNIFESP

Prof. Dr. João Tristan Vargas
Eixo Comum – EPPEN-UNIFESP

Prof. Dr. Julio Cesar Zorzenon Costa 
Ciências Econômicas – EPPEN-UNIFESP

Profa. Dra. Nildes Raimunda Pitombo Leite
Administração – EPPEN-UNIFESP

Prof. Dr. Salvador Andres Schavelzon
Eixo Comum – EPPEN-UNIFESP

* Rodrigo Medina Zagni é docente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo e repudia a hipocrisia reinante na área educacional brasileira em que impera o discurso de inclusão e universalização do ensino, ao mesmo tempo em que se precariza o sistema educacional público e se nega o ingresso nas universidades públicas aos menos abastados.